Cheia de estilo - Projeto 1
97 m²
Após uma temporada trabalhando no exterior, o casal de Maringá, PR, voltou ao Brasil disposto a construir seu espaço. Compraram um terreno de 1 000 m2 (44,50 x 22,90 m) num loteamento novo, afastado do centro da cidade, onde há sossego de sobra. A idéia é ter ali uma casa pequena para viver, mas que também agregue setor de lazer e cômodo de hóspedes. Os arquitetos Ligia Recco, Renata Domingues e Renato Delmonico, do escritório Plena Arquitetura, criaram um projeto simples, porém cheio de charme. A casa, com 68 m2, tem o suficiente para os moradores viverem bem. Atrás dela, uma edícula de 29 m2 abriga lavanderia e churrasqueira, além de um quarto para convidados. Em meio às duas construções, os profissionais reservaram uma área ensolarada, que futuramente poderá receber uma piscina. No restante do terreno, os planos dos proprietários prevêem uma horta e um pomar.
Custo* Tempo
Projeto: todos os projetos, incluindo as partes hidráulica e elétrica (sem taxas de aprovação na prefeitura), custaram R$ 3 562. Para o acompanhamento da obra, serão cobrados 10% do valor total da construção (R$ 5 850).
Material: estima-se um gasto de R$ 46 800.
Mão-de-obra: o orçamento de R$ 11 700 inclui o trabalho de dois pedreiros, um servente, um eletricista, um encanador e um pintor da região.
Tempo: avalia-se que a obra durará seis meses, com o número de operários determinado.
* O valor total da obra, incluindo material e a mão-de-obra, está estimado em R$ 58 500, o que representa um gasto de R$ 604 por m2. Trata-se de uma obra econômica, se comparada ao Índice A&C de março/2007, que previa R$ 837,35 por m2 para construções de padrão simples na região Sul.
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O CLÃ BERNARDES
Na interminável lista de dinastias arquitetônicas nada se compara, no Brasil, aos descendentes do arquiteto
Lançado em dezembro passado, o livro Claudio Bernardes & Paulo Jacobsen: discursos de uma parceria na arquitetura (1) ilumina a produção da dupla de arquitetos cariocas, que trabalhou junto durante 27 anos. A sociedade terminou com a morte de Claudio, vítima de um acidente automobilístico, no qual o sócio estava junto. A publicação detalha 25 projetos de casas, que constituem o programa mais significativo da produção do escritório. Claudio era filho de Sergio Bernardes (1919-2002), um dos arquitetos mais importantes que o Brasil já teve. Depois da morte de Claudio, Jacobsen tornou-se sócio de Thiago, filho de Claudio. É o clã Bernardes, que contraria a regra de que talento não é hereditário.
Um recente estudo da Universidade de Chicago (2) mediu o grau de felicidade de diversos tipos de profissionais, e os arquitetos norte-americanos ficaram bem na fita. Um total de 53,5% deles se declararam muito felizes, ficando com o 4° lugar do ranking - só atrás dos religiosos (67,2%), dos bombeiros (57,2%) e dos agentes de viagem (56,5%). Os projetistas ficaram na frente, por exemplo, de atores e diretores e pilotos de avião. Tudo bem que a situação econômica dos colegas americanos, pelo menos antes da crise, encontrava-se em melhor posição do que no Brasil. Mas isso reflete um dado corrente: por trabalharem com o que gostam, os arquitetos são pessoas felizes. E felicidade, assim como a tristeza, a raiva ou qualquer outro sentimento, contagia. Talvez seja por isso que muitos filhos de arquitetos escolhem a profissão dos pais. E quando isso acontece, principalmente diante do possível reconhecimento profissional e da importância da obra do pai, as comparações são inevitáveis. No exterior, existem alguns casos clássicos. Frank Lloyd Wright teve um filho paisagista, Frank Lloyd Wright Jr., que, por sua vez, é pai de Eric, que restaurou casas do avô. Eero Saarinen é filho de Eliel Saarinen, num caso raro de superação do pai. Álvaro Siza e Fernando Távora tiveram filhos arquitetos, ambos com certo destaque. Jorn Utzon trabalhava com os dois filhos, Jan e Kim. A lista é interminável.
Tradição e traço
No Brasil, um dos casos mais conhecidos é o dos Bratke: Oswaldo teve dois filhos arquitetos - Roberto, que atua como construtor, e Carlos, que trabalha na prancheta. Certa vez, em uma entrevista, (3) Luiz Paulo Conde (que também tem filho arquiteto), disse: “Veja o caso de Bratke, o filho, com o número de oportunidades que teve. Juntando-se toda a sua obra, o que ele fez?”. Em resposta, (4) Bratke (que é pai de Bárbara, também arquiteta) tocou no tema da herança profissional: “Tive também o prazer e a honra de trabalhar com meu melhor amigo - meu pai. Era um progressista e considerava meu trabalho a continuação do dele. A admiração e o amor que tenho por sua memória somente eu posso avaliar. A imagem de ‘filhinho de papai’, além de falsa, é muito, mas muito ofensiva, para mim e para ele”. Há ainda outros casos: Pedro de Melo Saraiva, que trabalha com o pai Pedro Paulo; Mendes da Rocha, que possui dois filhos arquitetos, um deles - Pedro -, seu frequente colaborador (apesar disso, uma vez ele me disse “eu não gosto desta coisa de trabalhar com filhos”); Márcio Kogan era filho de Aron e é pai de Gabriel, que estudou na FAU/USP com Rodrigo, filho de Ruy Ohtake. Também há o caso dos Aflalo, que estão na terceira geração de arquitetos. Em Belo Horizonte há o clã Hardy, em Porto Alegre são os Marques, em Campo Grande são os de Camillo.
Os Bernardes
Mas nessa interminável lista de dinastias arquitetônicas nada se compara no Brasil aos Bernardes: Sergio é pai de Claudio, que é de Thiago. O arquiteto mais velho do clã, que é filho do jornalista Wladimir Bernardes, foi um dos mais instigantes profissionais que atuaram no Brasil. Nasceu no Rio de Janeiro em 1919. Sua vocação aflorou na adolescência: aos 15 anos realizou seu primeiro projeto. A primeira parte de sua trajetória profissional é composta basicamente de casas, todas à maneira da escola carioca. Nessa fase, ele produziu uma série de projetos excepcionais. O mais famoso projeto dessa época é a residência Jadir de Souza (1951), que foi premiada na Bienal de Veneza. No folclore que envolve a vida pessoal de Sergio - uma personalidade da vida carioca de então – há o relato de que ele gastou o dinheiro do prêmio comprando uma Ferrari. A velocidade o cativava. “Era também um aventureiro, pioneiro na introdução do voo livre no Rio de Janeiro, participante das corridas de ‘baratinha’ na avenida Niemeyer e piloto de aviões de acrobacias”, (5) escreveu João Pedro Backheuser, que defendeu trabalho acadêmico sobre a obra de Sergio.
Desde então, já havia uma intensa pesquisa de materiais, tal como pode ser visto na casa de Lota Macedo Soares (1953), com cobertura de treliças metálicas e telhas do mesmo material. Na metade da década de 1950, a obra de Bernardes começa a ganhar personalidade. São desse período dois importantes projetos, ambos em São Paulo. Primeiro, ele desenhou o pavilhão da CSN (1954), no parque Ibirapuera - cuja ponte sobre o lago é um fragmento. Ali ele explicita o que usaria em outras obras: estruturas metálicas inclinadas atirantadas por cabos de aço. A segunda obra na capital paulista foi o concurso para a Capela de São Domingos, em Perdizes, não construída porque os padres dominicanos acharam-na ousada demais. (6) Nesse projeto, Bernardes utiliza o volume circular, que também fez parte de projetos futuros.
Em seguida, Bernardes passou a ser conhecido por obras de maior escala, todas muito criativas. Entre elas, estão o pavilhão de São Cristóvão (1958), o pavilhão do Brasil em Bruxelas (1958) e o Espaço Cultural de Brasília (1972) - infelizmente, recentemente descaracterizado -, em que dá sequência ao partido iniciado na obra do Ibirapuera. O arquiteto, que nunca deixou de projetar casas unifamiliares, é autor também de célebres projetos de edifícios de apartamentos que inovam na proposta de morar em habitações coletivas, como o conjunto Casa Alta (1959), no Rio de Janeiro. A ideia era propor inteira flexibilidade de planta aos futuros usuários. Outro projeto bastante conhecido de Bernardes é o hotel Tambaú (1966), em João Pessoa, formado por uma estrutura circular, implantada em parte sobre a área de areia da praia.
Visionário?
Mas, com o tempo, Sergio passou a se dedicar aos projetos urbanísticos. Com isso, criou em 1979 o Laboratório de Investigações Conceituais (LIC), que funcionou em paralelo com seu movimentado escritório. “O LIC alimenta-se dos desacertos para conceber mudanças. Mas mudanças que se fundamentam na naturalidade do Homem, que é a evolução, e não na revolução, que é a falta de naturalidade para admitir essa mesma evolução”, (7) definiu Sergio. Com suas novas propostas, que incluíam células submarinas, grandes portos, a “ampliação do chão de Fernando de Noronha”, cidades verticais etc., o projetista passou a ser visto como um visionário. “É uma babaquice chamar meu avô de arquiteto da utopia, porque ele, na verdade, queria plantar uma semente para que as pessoas não pensassem pequeno”, disse-nos Thiago, neto de Sergio, em entrevista publicada nesta edição. Tema de alguns trabalhos acadêmicos, um livro sobre a obra de Sergio Bernardes continua sendo a maior lacuna do mercado editorial no âmbito da arquitetura brasileira. Mais sorte teve seu filho Claudio, com dois livros já lançados sobre a sua obra. Se o primeiro, (8) editado enquanto era vivo, dava apenas um aperitivo do que foi o trabalho desenvolvido por ele, juntamente com Paulo Jacobsen - chamado de Cecedo -, o segundo volume apresenta de forma exemplar 25 projetos da dupla. O livro (1) coloca luz sobre uma produção pouco conhecida nos meios profissionais. Isso porque, se Claudio era uma figura bastante conhecida dos endinheirados do Rio de Janeiro, sua obra pouco foi publicada em revistas especializadas. Para ter uma ideia, nos 32 anos de história da PROJETO DESIGN só há registro de uma publicação de Claudio - a da loja House Garden, em São Paulo -, (9) entre os 500 projetos que eles desenvolveram.
Talvez isso tenha ocorrido porque a produção de Claudio e Jacobsen seja de difícil compreensão. Ou, ainda, por serem casas encomendadas por endinheirados que não gostariam de ver sua morada exposta. Ou então porque a casa foi pouco valorizada na história da revista. Mas não vem ao caso fazer um mea-culpa. Por outro lado, foram bastante divulgadas em revistas destinadas aos consumidores finais, mas sempre sem os desenhos. O fato é que elas agora estão à disposição de quem quiser estudá-las.
Palladianas
Claudio nasceu em 1949, quando seu pai tinha 30 anos. Aos 11 anos mudou-se com o pai para a casa da avenida Niemeyer e, como o escritório de Sergio também foi transferido para lá, passou a frenquentá-lo sem perceber. É em seu quarto da casa do pai que ele começa a fazer seus primeiros trabalhos. Seu projeto da Casa da Ilha das Palmeiras (1973), desenhado quando ele tinha 24 anos, marcou o início de sua independência como projetista. Um ano depois, Paulo Jacobsen começa a trabalhar em seu escritório, tornando-se seu sócio em 1979.
Apesar do lugar-comum de dizer que a obra de Claudio e Jacobsen é de difícil classificação, há no conjunto apresentado certa unidade. Em primeiro lugar, grosso modo, as casas possuem partidos palladianos. Ou seja, elas são implantadas tais como objetos, muitas vezes simétricos e regulares, e se comportam com ponto focal. Exemplo disso é a Casa da Asa, implantada em forma de V, entre o final de um cul-de-sac e a praia. Quase sempre são volumes puros. Se não forem, são derivações que, vistas da fachada tida como a mais importante do projeto - em geral, a aberta para a área de lazer -, aparentam volume puro. O que reforça essa expressão palladiana é a estrutura: quase sempre ela está aparente, seja em aço, concreto ou madeira. Nesse caso também há de se notar uma preferência para materiais semi-industrializados: construídas em lugares ermos, a ideia era facilitar a construção. Outro mote da maioria dos projetos é a maneira como os vão entre as estruturas são fechados. Elas possuem a mesma lógica das casas de Zanine Caldas, que montava uma gaiola através de uma retícula de madeira, com vigas e pilares de seções semelhantes. Essa gaiola geralmente é definida por um vão não muito grande, caracterizado pelo tipo de material e pelas dimensões dos dormitórios. O pano de fechamento é em alvenaria ou, como na maioria dos casos, com grandes caixilhos. Essa aproximação da obra de Zanine Caldas produziu alguns projetos com aspecto semelhante à obra do célebre arquiteto-autodidata. Mas na maioria dos casos os desenhos são bastante originais.
De dentro para fora
Outra característica do conjunto é a forma como o espaço interno é arranjado. Há grande generosidade na circulação, principalmente nas áreas de acesso e nas escadas. Muitas vezes, as escalas possuem mais quatro metros de largura, assumindo uma monumentalidade incomum para os ambientes domésticos. Há também, nesse mesmo sentido, uma atenção especial às salas de estar, quase sempre com pé-direito duplo. Cabe observar aqui que os projetos da dupla são desenhados de dentro para fora, ou seja, busca-se o espaço ideal interno para depois pensar na forma externa. Além disso, o cuidadoso detalhamento que a equipe faz é típico de quem trabalhou muitos anos fazendo apenas arranjos internos. Claudio e Jacobsen, durante o início da sociedade, tinham muitos trabalhos de reformas de apartamentos, por exemplo.
Por outro lado, há uma variação muito grande entre os aspectos finais das casas, tornando-os uma espécie de camaleão. Contudo, as casas foram sempre pautadas pela estrutura: se algumas das mais antigas do grupo, tal como a Casa das Palmeiras (1987) e a Casa do Tatu (1989), se parecem com cabanas indígenas contemporâneas, em outros casos, a opção pelo aço - como na Casa da Varanda (1989), Casa da Luz (1992), Casa das Transparências (1995) e na Casa da Enseada (2000) - dá ares high-tech à produção da dupla.
Contato entre gerações
Talvez o uso de tendas tensionadas seja o único ponto de aproximação entre a obra de Claudio e de Sergio. Fazendo as vezes de quebra-sol, as tendas estão visíveis na Casa da Asa (1999). Por outro lado, sombreando a cobertura, elas aparecem na Casa da Tenda (2000).
Outro aspecto comum a quase todas as casas do livro é o lugar paradisíaco em que estão implantadas, independentemente se é em uma ilha, em frente à praia, na montanha ou na cidade. O que me parece é que estamos diante daqueles lugares privados do Rio antigo, que só ficaram acessíveis a parte do público depois da publicação do livro Private Rio. (10)
Depois da morte de Claudio, Jacobsen se associou a Thiago, que já tinha escritório próprio. Thiago começou a trabalhar com o pai aos 17 anos. Fez seu primeiro projeto aos 18, mas procurou se afastar da arquitetura, pois carregava o sobrenome Bernandes. Tentou a fotografia, como conta na franca entrevista que nos concedeu, em que demonstra as diferenças arquitetônicas e pessoais que tinha com o pai. “Queria provar, para mim mesmo, que minha arquitetura poderia acontecer sozinha”, diz. Em seguida, completa: “Lembro-me de que, quando fui visitar Cecedo no hospital (eles estavam juntos no acidente de carro), falamos sobre a necessidade de nos ajudarmos dali em diante, mas eu, ainda assim, fui bem claro ao dizer que não estava assumindo nada, nem o lugar de ninguém. Ou seja, nem o lugar de meu pai, nem o escritório dele. Chamei, então, Cecedo para vir trabalhar comigo e começamos uma nova história naquele momento”. Esse novo capítulo da saga dos Bernardes já deu muitos frutos, alguns dos quais publicados pela PROJETO DESIGN. O programa continua semelhante - são casas espetaculares. Alguns dos clientes também são os mesmos.
E, assim, com Sergio e Claudio, Thiago e Jacobsen, dividem-se os escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo. Contudo, as tarefas são repartidas e cada projeto é iniciado por um dos sócios. Talvez por isso, enquanto certos projetos se assemelham ao repertório de Claudio - provavelmente aqueles criados por Cecedo -, outros são completamente diferentes. Mesmo porque agora há um terceiro sócio: Bernardo, o filho de Jacobsen.
1 - JACOBSEN, Paulo. Claudio Bernardes & Paulo Jacobsen: discursos de uma parceria na arquitetura. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.
2 - A pesquisa Job Satisfaction in United States foi realizada por Tom W. Smith na Universidade de Chicago em 2007. O resultado relacionado aos arquitetos refere-se à categoria “felicidade geral”, cuja pergunta foi: “Como você diria que está atualmente, que está muito feliz, bastante feliz ou não muito feliz?”. Em contrapartida, na categoria “satisfação no trabalho” (cuja pergunta foi, “de uma forma geral, quão satisfeito você está com o trabalho que realiza?” os arquitetos não aparecem entre as 12 profissões como trabalhadores mais satisfeitos.
3 - A entrevista com Conde foi publicada na PROJETO DESIGN 260, outubro de 2001.
4 - A resposta de Bratke foi publicada na PROJETO DESIGN 263, janeiro de 2002.
5 - O texto de João Pedro Backheuser foi publicado em PROJETO DESIGN 270, agosto de 2002.
6 - Em seu lugar foi construído um projeto de Franz Heep.
7 - No catálogo da exposição sobre Sergio Bernardes no
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ocorrida entre
outubro e novembro de 1983. A publicação é um número
espacial da revista Módulo.
8 - BEIRÃO, Nirlando. Claudio Bernardes. São Paulo: Editora
DBA, 2002.
9 - Edição 194, de março de 1996.
10 - CORREA DO LAGO, André. QUEIROZ, Juan Pablo. ELIA. Tomas de. Private Rio. Nova York: Rizzoli, 2004.
Edição 348 Fevereiro de 2009





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